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Pelo jardim

No fundo, Com paciência e perseverança, Há poesia no caos:

in contraditio

 Na fila do mercado,  minha alma revolucionária se esvai,  entre uma coca zero  e o burguês rapaz...

In somnia

 São três da manhã  E meu cérebro resolve despertar com pensamentos de Solidão e abandono. Enquanto isso, noite adentro, Pássaros cantam suas melodias de amor, Duas estrelas rompem as luzes da cidade E me fazem agora companhia Nesse recanto longínquo e perdido  no meio do caos  urbanoide e desenfreada.

Roubando palavras

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Insônia

 Começou tão de repente... E repentinamente se desfez. Laços frágeis,  forjados no ar de mentiras e seduções vazias Desfeitos aos ventos de seus desejos. Como pequenos fios de navalha  que cortam a carne Desatenta e iludida. Deslaçar-se trouxe marcas... Mais algumas Num mapa de dores que formam meu ser. Novos suaves caminhos... Irrisórios, perto de estradas anteriores, E ainda assim... Recentes dores. Enfim...  De frágeis começos, fins visíveis  de tormentos evitáveis. Tola quem não viu, No afã de sentir, A inviabilidade do outro de se entregar.

Sakura

 Minha tatuagem subiu... Mais flores no meu jardim particular. Novas rosas e Sakuras... Fiquei pensando no porquê de essas novas flores caírem tão bem aqui, visível e perto do cor ... Dizem que a Sakura simboliza a renovação, pode ser isso... As rosas são sobre quem eu sou, de onde eu vim, sobre as rosas-mães que me precederam, que formaram quem eu sou, vó, mães e irmãs... E com elas, toda a dor da perda e da ausência delas em mim. Já a sakura, esta nova flor, ela é por vc tanto quanto por mim.  É renovação e memória... Não acho que vou esquecer a gente tão logo (por mais que, em dias como o de hoje, o que mais queria era flor de lótus e o blivion ). Memória do que fomos, daquilo que vivemos e que foi tão belo por tanto tempo... Renovação, pra eu não esquecer de que, no final, há apenas um eu, qualquer que seja, mas apenas um eu, diferente todo dia, mas ainda eu . Hoje acordei assim...  Com faltas de você que era eu e um eu que foi você. Cassandra still breathing... SI TÚ...

Orphismos

Novamente, sonhei com você. Era aquele sonho de sempre: eu tentando te encontrar, numa busca constante de alguém tão presente, mas tão distante.  Estávamos numa estação de trem, lotada. Eu sentia sua mão nas minhas, até não sentir mais... A agonia de sempre, o ar que falta, o grito mudo preso na garganta.  Saio do trem, a plataforma também está lotada... Entre um mar de cabeças, procuro você e não o vejo.  Me desloco, abrindo caminho em desespero, como se me afogasse na sua ausência. Acelero, pois o trem em que estávamos está partindo... Tento te alcançar, pois imagino que esteja lá. Alguém me diz que você já não estava lá, que estava em outro trem. Corro para te buscar, mas não consigo: muitos corpos nos separam. Sinto o ar faltar novamente, sinto a dor do abandono, a agonia da solidão e do desconhecido. Mesmo assim, luto para ir até você. No trem em que você estaria, não o vejo.  Nesse momento, desisto. De repente, o trem está vazio... Do lado de fora, uma platafor...

v( )z( )oS

 Vazios Assim ficaram os minutos De ansiedade Pela mensagem não mandada Pelas palavras ditas sem resposta Pelo sumiço que corrompe a memória. Foi fogo, foi intenso, foi nosso. Um dengo, um chamego, um acalanto. Que, de repente, pelas impensadas, Impolutas, mas corrosivas Palavras, Você (antes você tão eu, eu tão você, tipo "tudão", entende?) Se    Des           Fez.... E, no final, não é que "aquele" foi o último "bora".

Mnemosine

Começou com uma conversa... Inocentes palavras que revelavam desejos, anseios por um outro (nem tanto) ideal. Da tela à carne, marcas de ontem hoje revivem  momentos de volúpia,  corredios eflúvios de prazer. Arrepios que deslizam entre minhas carnes por Mnemosine alimentados acordam expectativas de que  esses lábios, presentes apenas na lembrança, essas mãos, que ainda marcam minha pele, logo materializem imagens de ontem... ...não próximo, tampouco distante.

Bora?

Eu te quero. E isso não é pouco.  Eu vivo bem sozinha, eu sou meu caos e meu infinito.  Se você está na minha vida é porque realmente te quero nela. Isso diz muito sobre você, que conseguiu esse espaço por ser simplesmente você. Sei que assusto: viver e sentir intensamente podem fazer isso. Não é por obrigação, não é pra satisfazer ou cumprir nenhuma função... Eu te quero simplesmente por querer. Espero que isso baste pra não desviarmos desse encontro... Bora? P.s.: que esse não seja o último "bora".

Antíteses

Eu te odeio, com todos os nervos existentes em meu corpo, eu te odeio. Por todas as mentiras contadas, Por todos os anos perdidos, Pelas mágoas acumuladas, eu te odeio. Por aumentar minhas inseguranças, Por destruir quem eu era, Por me afastar de quem eu amava e do que eu amava, eu te odeio. Pelo abandono, Pela deslealdade, Pela traição, eu te odeio. Por toda dor que sinto - como socos contínuos no estômago- quando, por distração, lembro o fim, o engano e os engodos, eu te odeio. Por me pôr em risco, Por me fazer de idiota, Por acabar com minha autoestima, eu te odeio. Pelo seu gênero - desculpa frágil e falha para sua canalhice -, eu te odeio. Pela manipulação barata, eu te odeio. Pela desculpa esfarrapada, Eu te odeio. Por todos os sorrisos que não são comigo, Por todos os planos desfeitos, Por todos os sonhos perdidos, eu te odeio. Por me fazer desejar que cinco cavalos atados a cada membro do seu corpo debandem, selvagens, a esmo, em sangue marcando o chão por onde passam, por ISSO...

Aconchego

  Em uma dessas noites de saudades e solidão, buscando nos meus arquivos momentos de felicidade, achei esse vídeo. Foi no meu aniversário de trinta anos... E vocês dançaram juntos, como sempre faziam. Essa é uma das recordações mais belas que tenho: vocês dançando. Sempre juntos, numa demonstração de carinho que, mesmo nos momentos mais difíceis, vocês tinham um com o outro. Eu gostava de me pôr no meio dos dois... Ora para me sentir incluída naquele momento de amor, ora para roubar um pouco da atenção de vocês, mas, agora, só gostaria de me sentir novamente ali, juntinho, em algum lugar de acolhimento, de afeto e de segurança. Raramente escrevo sobre você, pai. Porque ainda dói... Mas falo sempre de você e sempre converso com você em meus pensamentos. Hoje fiz algo que antes era muito automático: saí do trabalho tão feliz que o primeiro ímpeto foi pegar o celular para lhe contar. Fazia tempo que isso não acontecia. Foi tão automático que, por segundos, esqueci sua ausênc...

Silêncios

 É noite. Garoa em São Paulo e está frio.  Há no ar frio que me envolve uma melancolia. Me embrulho no xale preto que encobre meus ombros, logo o contraste entre o calor da lã e o gélido do vento me despertam para o cenário em que estou: São Paulo desvairada, dos contrastes, da pobreza e da riqueza escancaradas a quem quiser ver; carros de luxo parados no farol da Alameda Campinas, jovens da classe média bem-vestidos e agasalhados na porta do Pub, enquanto outros se encolhem nas esquinas, por cima de caixas de papelão, tentando encontrar um lugar seco e quente para passar a noite. Tudo isso em menos de um quarteirão do meu portão. Continuo, pois essa é a única opção no dia de hoje: andar para esquecer a dor. Sinto o vento frio balançar meus cabelos ainda úmidos do banho, enquanto subo a Alameda agora silenciosa. O frio me atraiu para a rua... A solidão me expulsou de casa. Há algo de romântico em caminhar por esta cidade, mesmo diante de todas as suas dicotomias... Lembro-me d...

Medeia

Apaixonou-se desde o primeiro dia. Ele, heroico e perdido, buscando em seus olhos a direção de sua epopeia. Ela, jovem e invisível, indiferente às vontades do mundo para os papéis de seu gênero. E, embora fosse a melhor em tudo que fazia, nada além de sua função reprodutiva e social parecia importar aos seus. Numa noite, perdidos em seus destinos, se encontraram. Ela o guiou.  Ele cresceu em seus embates.  Ao seu lado, ela dominava o mundo dos homens, mas nas sombras. Ele, na luminosidade da fama, se apropriava da força magnética de suas palavras, de sua capacidade sobrenatural de abrir-lhe caminhos, mostrar-lhe a melhor rota para alcançar seus objetivos. Por anos, assim, nessa rotina de luz e sombras, realizações e apagamentos, eles navegaram na vida a dois. Mas Eros, o distribuidor de enganos, o que cega a razão dos mortais, certo dia, aportou-o, em sua maturidade, nos braços de uma jovem cujo olhar de encanto diante de sua grandeza o seduziu. Poder, juventude, promessa de n...

Isto é um adeus

  E como a gente se despede do que não acabou? Há, ainda, um amor imenso em mim, sem lugar. “A gente já foi um amor exagerado...” Eu me desfaço em cada lembrança.   Eu me desconstruo em cada memória, ainda mais presente em cada ausência: no sofá, ao chegar do trabalho; na cama, ao deitar derrotada pelo cansaço do dia; na cozinha, ao discutirmos um Foro... Dizem que o tempo cura, mas quando a saudade aperta ainda busco seu cheiro, ainda busco seus olhos, ainda busco seu sorriso, seus braços abertos pra me receber na hora de dormir. Você era o futuro, o presente, o apoio... Mas faltou lealdade, faltou sinceridade. Você lembra o começo? O reconhecimento da revolução um no outro? A idealização de um mundo melhor e de uma vida mais justa? Todo começo devia ser como o nosso: inesperado e belo. Não me reconheço nessa ausência, mas já há algum tempo não nos reconhecíamos mesmo presentes, não é? Eu entendo o fim, mas ele me machuca ainda mais estes dias... Foi de repente, a...

Para não esquecer

E quando começamos a aprender que estamos, de fato, sós? Queria me explicar... Não assim, à distância e por escrito, mas, aparentemente, esta é a única forma de comunicação que temos. Surtei. Por isso, me perdoe. A solidão faz isso com as pessoas. A culpa não foi sua e sei que isto (eu) já está ficando cansativo. “Era para ser leve”. Realmente, era para ser leve, mas esta leveza que você procura eu não tenho, não agora pelo menos. Você me perguntou há algum tempo se ELE (o meu inominável) ainda mexia comigo. Sim, mexe... Muito. Ele era porto, era amigo, era o centro do mundo que criei... Aparentemente sozinha, mas me criei ao redor dele. Abri mão de mim, do que era, do que queria ser. Agora, estou reaprendendo a existir assim. Me desculpa, não deveria ter feito de você esse bote de apoio num momento de afogamento. Avisei que era um caos... Você não acreditou. Há vários tipos de caos, entre eles, o da necessária reconstrução após uma catástrofe.  Minha catástrofe: ...

Escrevilhar para salvar a alma

Na ciranda da vida, espaços se abrem, pessoas ficam e outras se vão. É um movimento contínuo de perdas e perdas, “dentro do ser” outras mil perdas mais. Alguns espaços se abrem mais do que outros. Alguns, não muitos, até se fecham ou são preenchidos por amores que nos atacam quando menos esperávamos por eles. Outros, contudo, nunca se fecham. Por mais que o ignoremos, eles ficam lá, esperando uma distração para mostrar que ainda existem: buracos fundamentais; lacunas básicas, daqueles que originaram nossas vidas e, pelo destino de seres orgânicos e efêmeros, agora não são , não estão ... Na ciranda da vida, dançamos todos a mesma canção: tristezas, amores, festas, mortes, perdas e renascimentos. Queria, por um momento, que este girar interminável parasse: uma fotografia eterna no tempo infindável. Um momento em que, de mãos dadas, todos, estivéssemos presentes: pai, irmãos, avós, avôs, amores, filhos e netos... Todos, de mãos dadas, preenchendo todas as lacunas que o tempo, b...

De espaços e hipóteses

Algumas coisas ficaram sem respostas, por mais que minha mãe e minhas tias tentassem preencher o vazio deixado por você, ainda há histórias que eu queria ouvir, fatos que queria entender, sua visão do que passou na sua vida. São lacunas que seriam preenchidas no decorrer da minha vida, durante momentos de consolo e carinho. Momentos que raramente tive com a figura de uma avó. Tive avós, que amo e amei muito. Uma delas, em especial, foi você quem me deu. Que nos deu (sei que meus primos e meu irmão a amam tanto quanto amariam você, se estivesse aqui, ao vivo). A vida não foi justa, mas poucas vezes ela é. Talvez, se ela tivesse sido mais justa, se tivesse garantido a vocês mais tempo, nós não estaríamos aqui. Mas, frequentemente, me pergunto, em dias como o de hoje, de chuva, frio, tristezas e isolamento, o que você me contaria da sua infância. O que você me contaria sobre o meu avô (sei tão pouco). É arrogância achar que teria todas as respostas, que você as contaria para mim, ...

Minha Última Carta de Amor

  São Paulo, 06 de maio de 2024, às 2h30 de mais uma noite de insônia e dor de cotovelo.  Para você, Eis minha última carta de amor... e ela é RIDÍCULA, como todas as cartas de amor o são... E eis-me, também aqui, não pela primeira, mas pela última vez rebaixando-me aos mais risíveis sentimentos humanos para escrever uma carta de amor... Não quero, com essa introdução, dizer que o amor é risível: não é. As cartas de amor o são. Principalmente como esta, fruto da rejeição (sinto, pela experiência, que este sentimento ainda muito me há de acometer... santa terapia, me guarde e me proteja!). Mas calma, caro destinatário (se é que ainda não desistiu de ler), esta carta de amor, embora ridícula e fruto de seu desprezo por mim, não lhe será laudatória tampouco um poema jâmbico de Hipponax... Veja isto como um despir da alma... Acho justo lhe dar a oportunidade de desprezá-la tanto quanto o fizeste com o corpo. Dessa maneira, quem sabe a nudez completa do meu ser se transform...

Fim

Sinto um peso no peito, e esse peso molha meus olhos, lava meu rosto, contorce meu ser. Dor Pensar em você, hoje, aumenta o espaço entre meus braços, aumenta a cama, antes tão estreita. Hoje, estranhamento do frio no travesseiro, o seu... Também molhado... De onde vem esse rio, silencioso, tromba d'água que surgiu da ausência. (... Você devia estar aqui, entre os parênteses dos meus braços ...) Você era, nós existíamos... Fantasmas do que fomos. Hoje, só hoje, queria começar do branco completo do esquecimento.  Assim a dor não seria tão grande.