Minha Última Carta de Amor

 

São Paulo, 06 de maio de 2024, às 2h30 de mais uma noite de insônia e dor de cotovelo.

 Para você,

Eis minha última carta de amor... e ela é RIDÍCULA, como todas as cartas de amor o são... E eis-me, também aqui, não pela primeira, mas pela última vez rebaixando-me aos mais risíveis sentimentos humanos para escrever uma carta de amor...

Não quero, com essa introdução, dizer que o amor é risível: não é. As cartas de amor o são. Principalmente como esta, fruto da rejeição (sinto, pela experiência, que este sentimento ainda muito me há de acometer... santa terapia, me guarde e me proteja!). Mas calma, caro destinatário (se é que ainda não desistiu de ler), esta carta de amor, embora ridícula e fruto de seu desprezo por mim, não lhe será laudatória tampouco um poema jâmbico de Hipponax...

Veja isto como um despir da alma... Acho justo lhe dar a oportunidade de desprezá-la tanto quanto o fizeste com o corpo. Dessa maneira, quem sabe a nudez completa do meu ser se transforme na pitada de sal de Cartago dessa relação (observe os exemplos acadêmicos odiados e o pedantismo da escrita irônica, tão blasé... estou me esforçando para ampliar ainda mais a distância entre nós..).

Bem, sem mais prólogo, ei-la: sim, meu caro destinatário, apaixonei-me por você (calma, dizem os cientistas que passa em 21 dias...).

Embora toda paixão seja mais fictícia que real, seja mais responsabilidade de quem se apaixona do que do alvo de seus desejos, devo admitir que você é um pouco responsável por isso, sim.

Não cairei no clichê (“fodam-se os clichês”) de “a culpa é sua por ser belo e inteligente e blá-blá-blá” (concordemos que EU não tenho mais idade para isso), porém a culpa é sua por me fazer baixar a guarda por alguns instantes, por me fazer deixar de lado meu cinismo momentaneamente (foram belos momentos, efêmeros porém).

Se lhe dou o ônus, também lhe devo o bônus: foi, de certa forma, gratificante perceber que ainda posso sentir algo. Guardarei, enquanto o tempo permitir, as risadas, as conversas, os hipotéticos nomes de filhos e a futura ordem da casa, enquanto revezaríamos os cuidados das crianças e as orgias noturnas... Com o tempo, creio que essas memórias amarelem com meu cinismo (que já percebo estar voltando, graças aos deuses!).

Pronto, termino esta carta de amor (ridícula, claro) com uma promessa: não farei mais cartas de amor!

Às batatas com o ridículo! Agora, quero apenas a segurança dos hipócritas, dos cínicos, daqueles que não sentem...

Esta carta... ridícula, pobrezinha... é sua. Faça com ela o que bem quiser! Queime, mande pra macumba, imprima e guarde no meio de Grande Sertão, bem na morte de Diadorim (daria um gostinho ainda mais trágico, não? Rss), enfim... sendo sua, faça o que quiser.

Com amor (que teima, mas agoniza),

F.L.

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