Orphismos
Novamente, sonhei com você.
Era aquele sonho de sempre: eu tentando te encontrar, numa busca constante de alguém tão presente, mas tão distante.
Estávamos numa estação de trem, lotada. Eu sentia sua mão nas minhas, até não sentir mais... A agonia de sempre, o ar que falta, o grito mudo preso na garganta.
Saio do trem, a plataforma também está lotada... Entre um mar de cabeças, procuro você e não o vejo.
Me desloco, abrindo caminho em desespero, como se me afogasse na sua ausência. Acelero, pois o trem em que estávamos está partindo... Tento te alcançar, pois imagino que esteja lá. Alguém me diz que você já não estava lá, que estava em outro trem. Corro para te buscar, mas não consigo: muitos corpos nos separam.
Sinto o ar faltar novamente, sinto a dor do abandono, a agonia da solidão e do desconhecido.
Mesmo assim, luto para ir até você. No trem em que você estaria, não o vejo.
Nesse momento, desisto.
De repente, o trem está vazio... Do lado de fora, uma plataforma limpa, organizada e iluminada pelo sol.
A agonia se desfaz, saio do trem para a plataforma iluminada e vazia...
O desespero se foi...
Agora há somente a sensação da sua mão na minha, o entrelaçar dos dedos tão característico nosso, mas sem a agonia do adeus...
Assim você se desfez, como Eurídice diante do olhar de Orpheu em agonia por concretizar seu amor.
Assim você se foi.
Orpheu, em névoas, a buscar um sonho...
=(
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