Medeia

Apaixonou-se desde o primeiro dia.

Ele, heroico e perdido, buscando em seus olhos a direção de sua epopeia.

Ela, jovem e invisível, indiferente às vontades do mundo para os papéis de seu gênero. E, embora fosse a melhor em tudo que fazia, nada além de sua função reprodutiva e social parecia importar aos seus.

Numa noite, perdidos em seus destinos, se encontraram.

Ela o guiou. 

Ele cresceu em seus embates. 

Ao seu lado, ela dominava o mundo dos homens, mas nas sombras.

Ele, na luminosidade da fama, se apropriava da força magnética de suas palavras, de sua capacidade sobrenatural de abrir-lhe caminhos, mostrar-lhe a melhor rota para alcançar seus objetivos.

Por anos, assim, nessa rotina de luz e sombras, realizações e apagamentos, eles navegaram na vida a dois.

Mas Eros, o distribuidor de enganos, o que cega a razão dos mortais, certo dia, aportou-o, em sua maturidade, nos braços de uma jovem cujo olhar de encanto diante de sua grandeza o seduziu.

Poder, juventude, promessa de novas aventuras fizeram com que ele, apesar dos anos, apesar de tudo o que tirara de Medeia, apesar dos filhos que tiveram, a abandonasse.

Dizem que a astúcia é a melhor arma da mulher. Se a astúcia assim o é, a vingança é seu melhor combustível.

Ao receber a notícia, sorriu.

Dissimulou a dor.

Aceitou a derrota e, livre, deixou-o ir para sua nova odisseia, mas sem o velo de suas palavras.

Quando, pouco tempo depois, convites de festejos alcançaram sua casa, sorriu silenciosamente. 

O Destino trouxera-lhe terríveis oportunidades.

Confirmações mandadas, malas arrumadas, o presente embrulhado.

Com a força de palavras, que tão bem sabia usar, convenceu a jovem a aceitar seu presente. 

"Something Bored, something BLUE...": um véu digno da beleza de Helena, translúcido, com tons de azul do fim do dia. Tal gesto, que poderia ser visto com desconfiança, foi amenizado pelas mãos que lhe estenderam o presente: os filhos do tão amado noivo que a aguardava no altar. 

...

Dor, nos olhos dos filhos, dor e desespero nos olhos da jovem. Sua pele, rija e bela, a qual invejara a ponto de desejar cobrir-se com ela, como uma veste sanguínea, agora lentamente derretia.

A noiva, em desespero, tentava segurar a decadência de seu corpo, que via, aos poucos, fragmentar-se, deixando vestígios de sangue e massa humana ao seu redor.

Encantada, admirava Medeia o fim daquela farsa, embora uma dor lancinante a espreitava ao ver também os seus receberem o mesmo destino.

Prazer e dor, simultaneamente indescritíveis, ao ver o fim daquilo que construíra: três poças de restos humanos, nada além de ossos e sangues; e um ser, outrora grandioso, levado à ruína.


No carro do Sol, arrebatada pelo prazer da vingança, Medeia retira-se de cena. 

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