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Mostrando postagens de maio, 2024

Medeia

Apaixonou-se desde o primeiro dia. Ele, heroico e perdido, buscando em seus olhos a direção de sua epopeia. Ela, jovem e invisível, indiferente às vontades do mundo para os papéis de seu gênero. E, embora fosse a melhor em tudo que fazia, nada além de sua função reprodutiva e social parecia importar aos seus. Numa noite, perdidos em seus destinos, se encontraram. Ela o guiou.  Ele cresceu em seus embates.  Ao seu lado, ela dominava o mundo dos homens, mas nas sombras. Ele, na luminosidade da fama, se apropriava da força magnética de suas palavras, de sua capacidade sobrenatural de abrir-lhe caminhos, mostrar-lhe a melhor rota para alcançar seus objetivos. Por anos, assim, nessa rotina de luz e sombras, realizações e apagamentos, eles navegaram na vida a dois. Mas Eros, o distribuidor de enganos, o que cega a razão dos mortais, certo dia, aportou-o, em sua maturidade, nos braços de uma jovem cujo olhar de encanto diante de sua grandeza o seduziu. Poder, juventude, promessa de n...

Isto é um adeus

  E como a gente se despede do que não acabou? Há, ainda, um amor imenso em mim, sem lugar. “A gente já foi um amor exagerado...” Eu me desfaço em cada lembrança.   Eu me desconstruo em cada memória, ainda mais presente em cada ausência: no sofá, ao chegar do trabalho; na cama, ao deitar derrotada pelo cansaço do dia; na cozinha, ao discutirmos um Foro... Dizem que o tempo cura, mas quando a saudade aperta ainda busco seu cheiro, ainda busco seus olhos, ainda busco seu sorriso, seus braços abertos pra me receber na hora de dormir. Você era o futuro, o presente, o apoio... Mas faltou lealdade, faltou sinceridade. Você lembra o começo? O reconhecimento da revolução um no outro? A idealização de um mundo melhor e de uma vida mais justa? Todo começo devia ser como o nosso: inesperado e belo. Não me reconheço nessa ausência, mas já há algum tempo não nos reconhecíamos mesmo presentes, não é? Eu entendo o fim, mas ele me machuca ainda mais estes dias... Foi de repente, a...

Para não esquecer

E quando começamos a aprender que estamos, de fato, sós? Queria me explicar... Não assim, à distância e por escrito, mas, aparentemente, esta é a única forma de comunicação que temos. Surtei. Por isso, me perdoe. A solidão faz isso com as pessoas. A culpa não foi sua e sei que isto (eu) já está ficando cansativo. “Era para ser leve”. Realmente, era para ser leve, mas esta leveza que você procura eu não tenho, não agora pelo menos. Você me perguntou há algum tempo se ELE (o meu inominável) ainda mexia comigo. Sim, mexe... Muito. Ele era porto, era amigo, era o centro do mundo que criei... Aparentemente sozinha, mas me criei ao redor dele. Abri mão de mim, do que era, do que queria ser. Agora, estou reaprendendo a existir assim. Me desculpa, não deveria ter feito de você esse bote de apoio num momento de afogamento. Avisei que era um caos... Você não acreditou. Há vários tipos de caos, entre eles, o da necessária reconstrução após uma catástrofe.  Minha catástrofe: ...

Escrevilhar para salvar a alma

Na ciranda da vida, espaços se abrem, pessoas ficam e outras se vão. É um movimento contínuo de perdas e perdas, “dentro do ser” outras mil perdas mais. Alguns espaços se abrem mais do que outros. Alguns, não muitos, até se fecham ou são preenchidos por amores que nos atacam quando menos esperávamos por eles. Outros, contudo, nunca se fecham. Por mais que o ignoremos, eles ficam lá, esperando uma distração para mostrar que ainda existem: buracos fundamentais; lacunas básicas, daqueles que originaram nossas vidas e, pelo destino de seres orgânicos e efêmeros, agora não são , não estão ... Na ciranda da vida, dançamos todos a mesma canção: tristezas, amores, festas, mortes, perdas e renascimentos. Queria, por um momento, que este girar interminável parasse: uma fotografia eterna no tempo infindável. Um momento em que, de mãos dadas, todos, estivéssemos presentes: pai, irmãos, avós, avôs, amores, filhos e netos... Todos, de mãos dadas, preenchendo todas as lacunas que o tempo, b...

De espaços e hipóteses

Algumas coisas ficaram sem respostas, por mais que minha mãe e minhas tias tentassem preencher o vazio deixado por você, ainda há histórias que eu queria ouvir, fatos que queria entender, sua visão do que passou na sua vida. São lacunas que seriam preenchidas no decorrer da minha vida, durante momentos de consolo e carinho. Momentos que raramente tive com a figura de uma avó. Tive avós, que amo e amei muito. Uma delas, em especial, foi você quem me deu. Que nos deu (sei que meus primos e meu irmão a amam tanto quanto amariam você, se estivesse aqui, ao vivo). A vida não foi justa, mas poucas vezes ela é. Talvez, se ela tivesse sido mais justa, se tivesse garantido a vocês mais tempo, nós não estaríamos aqui. Mas, frequentemente, me pergunto, em dias como o de hoje, de chuva, frio, tristezas e isolamento, o que você me contaria da sua infância. O que você me contaria sobre o meu avô (sei tão pouco). É arrogância achar que teria todas as respostas, que você as contaria para mim, ...

Minha Última Carta de Amor

  São Paulo, 06 de maio de 2024, às 2h30 de mais uma noite de insônia e dor de cotovelo.  Para você, Eis minha última carta de amor... e ela é RIDÍCULA, como todas as cartas de amor o são... E eis-me, também aqui, não pela primeira, mas pela última vez rebaixando-me aos mais risíveis sentimentos humanos para escrever uma carta de amor... Não quero, com essa introdução, dizer que o amor é risível: não é. As cartas de amor o são. Principalmente como esta, fruto da rejeição (sinto, pela experiência, que este sentimento ainda muito me há de acometer... santa terapia, me guarde e me proteja!). Mas calma, caro destinatário (se é que ainda não desistiu de ler), esta carta de amor, embora ridícula e fruto de seu desprezo por mim, não lhe será laudatória tampouco um poema jâmbico de Hipponax... Veja isto como um despir da alma... Acho justo lhe dar a oportunidade de desprezá-la tanto quanto o fizeste com o corpo. Dessa maneira, quem sabe a nudez completa do meu ser se transform...