De espaços e hipóteses
Algumas coisas ficaram sem respostas, por mais que minha mãe e minhas tias tentassem preencher o vazio deixado por você, ainda há histórias que eu queria ouvir, fatos que queria entender, sua visão do que passou na sua vida.
São
lacunas que seriam preenchidas no decorrer da minha vida, durante momentos de
consolo e carinho. Momentos que raramente tive com a figura de uma avó.
Tive
avós, que amo e amei muito. Uma delas, em especial, foi você quem me deu. Que
nos deu (sei que meus primos e meu irmão a amam tanto quanto amariam você, se
estivesse aqui, ao vivo).
A
vida não foi justa, mas poucas vezes ela é. Talvez, se ela tivesse sido mais
justa, se tivesse garantido a vocês mais tempo, nós não estaríamos aqui. Mas, frequentemente,
me pergunto, em dias como o de hoje, de chuva, frio, tristezas e isolamento, o
que você me contaria da sua infância. O que você me contaria sobre o meu avô
(sei tão pouco).
É
arrogância achar que teria todas as respostas, que você as contaria para mim,
ou que teríamos o tipo de vínculo forjado no amor. Não sei nem se você iria
gostar de mim (de vez em quando, nem eu gosto). Mas, como uma boa ficção, eu
posso imaginar o que quiser. Então aqui, plano das ideias e no espaço em branco
da folha, eu posso imaginá-la completando sua trajetória, vivendo o que não pôde..
Eu posso dar o tempo que você não teve (arrogância dos criadores)...
Será
que um pouco desse tempo seria meu? Hoje, mais do que nunca, gostaria que
fosse. Queria o carinho das avós que trançam os cabelos das netas, que
apaziguam as dores com o colo que só elas sabem dar.
Você,
tão linda (imortalmente bela), será que poderia contar como sarar as dores que
ferem a existência? Será que saberia mostrar como apaziguar as vãs subtilezas da
solidão?
...
tão só...
Como
seria o cheiro do seu colo, o toque do seu carinho? Talvez como o das minhas
mães (por isso, obrigada, tenho a vantagem de ter o carinho de quatro rosas que
você deixou). Talvez tivéssemos a cumplicidade que, por mais que eu queira, não
consigo ter com elas. Amo-as, mas não sinto que possa decepcioná-las: elas já
lutaram tanto para sermos quem somos, imperfeitas e fortes (fortes, antes de
tudo).
Mas
hoje não deu...
[reparei
agora que esse texto é de“talvez” e de reticências... lacunas... imperfeição]
Gostaria
de dizer que são páginas de histórias verdadeiras, reais, mas é no espaço do
que não foi que existo.
Amor
eterno,
Sua
neta.
Comentários
Postar um comentário