Silêncios

 É noite. Garoa em São Paulo e está frio. 

Há no ar frio que me envolve uma melancolia. Me embrulho no xale preto que encobre meus ombros, logo o contraste entre o calor da lã e o gélido do vento me despertam para o cenário em que estou: São Paulo desvairada, dos contrastes, da pobreza e da riqueza escancaradas a quem quiser ver; carros de luxo parados no farol da Alameda Campinas, jovens da classe média bem-vestidos e agasalhados na porta do Pub, enquanto outros se encolhem nas esquinas, por cima de caixas de papelão, tentando encontrar um lugar seco e quente para passar a noite. Tudo isso em menos de um quarteirão do meu portão.

Continuo, pois essa é a única opção no dia de hoje: andar para esquecer a dor.

Sinto o vento frio balançar meus cabelos ainda úmidos do banho, enquanto subo a Alameda agora silenciosa.

O frio me atraiu para a rua... A solidão me expulsou de casa. Há algo de romântico em caminhar por esta cidade, mesmo diante de todas as suas dicotomias... Lembro-me de uma época em que andávamos por horas na Avenida Paulista, simplesmente conversando; ocupávamos o vão do MASP, sempre acolhedor, com um vinho barato e ideias revolucionárias para mudar o mundo. Com essa imagem, meus pés, automaticamente, me guiaram para aquela direção.

Nesses dias frios, que clamam por aconchego, busco o carinho dos solitários nos braços da fria São Paulo: um café, uma padaria, um cinema que me acolha de mim, que me afaste do convívio excessivo de mim.

Distraída, ouvi uma voz que me acompanhava há algum tempo (... tão distante e quase inaudível...) e que me tirou dos devaneios. 

"Tá distraída, companheira... ouviu o que eu disse antes?" Essas palavras, naquele ser de quase dois metros que há pouco ocupava minha cama e meu corpo, pareceram-me tão fúteis e, simultanemaneamente, tão falsas que quase me fizeram gritar para que desaparecesse, que sumisse da minha frente, que não era sua "companheira", não era, afinal, nada dele... Ele era apenas um ente que preenchera, momentaneamente, as lacunas da minha existência. 

Me senti mal... Não queria tratá-lo dessa forma, apesar de sentir que, para ele, eu também era apenas isto: um corpo para esquecermos, pelo prazer, a falta de sentido dessa existência.

Mas até essa busca foi falha hoje... 

Deve ser interessante crescer sabendo que o mundo foi construído para ser o palco de sua existência. Olho para aquele corpo que me acompanha e imagino se, mesmo participando de movimentos sociais, mesmo tendo consciência das desigualdades que nos envolvem, ele, hoje, praticara também de seu egoísmo "natural": me colonizara única e exclusivamente para saciar seus ímpetos, ignorando a contraparte naquele jogo...

Respondi-lhe algo inteligente e distante, enquanto acelerava o passo. 

Queria me distanciar disso tudo, queria escapar de suas palavras sem sentido para mim naquele momento... Mas ele seguia... indiferente ao meu silêncio.

Três voltas pela Paulista demoraram para alcançar a solitude que queria. Três voltas pelo MASP, como Aquiles arrastando o corpo de Heitor pelas portas de Troia. Na primeira, algumas palavras ainda saíam de mim, em discordância de algum tema político. Na segunda, concordei parcialmente com sua visão de educação. Na terceira, perdi-me completamente no mar de silêncio de meu gênero... Mas meu corpo, protegido pelos deuses, sobreviveu intacto ao desfile do vencedor. 

Desfiz meu caminho, com um corpo silencioso em mim e outro ao meu lado. 

Diante daquele desvairo da cidade, ainda silente e gélida, reencontrei a entrada de meu refúgio.

Sozinha. 

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