Aconchego
Em
uma dessas noites de saudades e solidão, buscando nos meus arquivos momentos de
felicidade, achei esse vídeo.
Foi
no meu aniversário de trinta anos... E vocês dançaram juntos, como sempre
faziam.
Essa
é uma das recordações mais belas que tenho: vocês dançando. Sempre juntos, numa
demonstração de carinho que, mesmo nos momentos mais difíceis, vocês tinham um
com o outro.
Eu
gostava de me pôr no meio dos dois... Ora para me sentir incluída naquele
momento de amor, ora para roubar um pouco da atenção de vocês, mas, agora, só
gostaria de me sentir novamente ali, juntinho, em algum lugar de acolhimento,
de afeto e de segurança.
Raramente
escrevo sobre você, pai. Porque ainda dói... Mas falo sempre de você e sempre
converso com você em meus pensamentos.
Hoje
fiz algo que antes era muito automático: saí do trabalho tão feliz que o
primeiro ímpeto foi pegar o celular para lhe contar. Fazia tempo que isso não
acontecia. Foi tão automático que, por segundos, esqueci sua ausência aqui...
Efeito
reverso: a saudade aumentou quando entendi que você não iria atender aquela
ligação.
Sei
sua voz de cor, ela ainda reverbera na minha mente. Consigo imaginar o que você
iria dizer... Mas, mesmo assim, hoje eu queria te ouvir. Não ia falar das
falhas e das dores, essas você conseguia entender só pelo timbre da minha voz.
Era só pra falar que o dia foi bom, que, finalmente, estou num trabalho que amo
e que estou bem (fazia tempo, neh?).
Enfim,
Drummond tem razão:
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
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