Intróito

Nem ela sabia ao certo o que fazia no mundo, sempre aguardando o despertar de uma era que não tinha começo ou fim ou sequer temporalidade...

Sua vida era de uma abstração macabeica, mas piorada, já que a adoravelmente repugnante personagem tinha, ao menos, a doce ilusão da ignorância. Ela não podia contar nem com isso. Sua vida era passo a passo medida, planejada e ignóbil, simplesmente ignóbil. 

Ela era, em si mesma, a encarnação da negação da existência. Viver era um simples ato de osmose, como os mais simples seres unicelulares podiam fazer, com a diferença que, o que eles faziam com uma célula, ela fazia com milhares - um verdadeiro desperdício em sua concepção. 

Mas, então, por que gastar grego com ouvidos bárbaros?

 Simples: se o nada, o vazio e o não existir mereceram páginas e páginas de estudos filosóficos, este exemplar da comunidade humana pode ser exposto como a comprovação de todas as teorias vigentes sobre a inexistência do ser. 

Ora, meu caro e inexistente leitor, se aprecias boas teses e argumentações sobre assuntos que, de forma alguma, concernem ao mundo prático, considera estas palavras como um ensaio sobre uma nova teoria: a teoria da falha lacunar.


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