O espelho do reflexo invertido: uma página perdida de Cassandra.

" Minha história começa do nada e ao nada ela retorna. Não há formas viventes. Não há finais felizes. Não há sentimentos ou sentimentalidades: não há amor, ódio, amigos, inimigos ou outras tolices piegas... O que há então? A certeza absoluta do nada e a incerteza arrebatadora das palavras ditas. Há pontos de vistas diferentes. Há destino e partidas - vários caminhos para ir ao mesmo: Thanatos. Na minha vida não há sintagmas cristalizados lacunados, sem sentido algum, como AMor e Morte. Eles são a droga do humano, vício mal-dito alimentado por séculos por sua fraqueza. Eles são a necessitade vital do homem de fuga do verdadeiro Caos que comanda a inútil e devastadora vida humana. QUem vê nestas palavras a boca amarga de um ser biliático, vê a verdade! Minha boca está amarga pelas palavras nunca escutadas que guardam a ruína dos mortais. Poupá-los é inútil. Seu fim é único e imutável. As mesmas palavras que constróem realidades imortais, as destróem. Sou sim amarga e invejosa. Sou invejosa da ignóbil felicidade alheia. GOstaria de ter a ignorância daqueles que conseguem ver felicidade nos detroços do grotesco. Gostaria de ter, como eles, meus olhos vendados às amarras capitais que governam seu armário, seu cabelo, seu corpo e sua mente... Gostaria de ser como eles e não ter a maldição divina e paterna da palavra que não se olvidará nunca, embora nunca pronunciada..." Esta página do Diário de Cassandra foi encontrada próxima a sua lápide, junto a rosas ressecadas do enterro. Não Há data nem indicações que mostrem seu paradeiro antes de sua misteriosa morte. Era então apenas um corpo espalhado na calçada, rodeado de arcoíris nascentes dos cacos que rasgaram sua carne por vinte e dois andares...

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